Marcação a Mercado no Tesouro Direto: o que acontece quando você vende antes
"Renda fixa não perde dinheiro." Essa frase circula há décadas e está errada. Renda fixa tem risco de crédito (emissor quebrar) e risco de mercado — o famoso efeito da marcação a mercado. Se você compra um Tesouro Prefixado a 11,5% ao ano e a taxa sobe para 14,5% no mês seguinte, seu título perde valor de mercado mesmo sem nada ter acontecido com o governo. Entender esse mecanismo separa o investidor consciente do que se assusta com a primeira notícia negativa.

Respostas Rápidas
O que é marcação a mercado?
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É a prática contábil de atualizar diariamente o preço de um título pelo valor que ele valeria se fosse vendido hoje no mercado. No Tesouro Direto, o Tesouro Nacional publica preços de recompra diários com base na taxa de juros atual. Se você compra Tesouro Prefixado a 11,5% e a taxa de mercado sobe para 14,5%, seu título precisa oferecer retorno equivalente para um novo comprador — o que só acontece se o preço cair. A matemática é obrigatória, não opcional.
Todos os títulos sofrem marcação a mercado?
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Sim, todos — mas o impacto varia. Tesouro Selic tem oscilação mínima porque o cupom acompanha a Selic em tempo real. Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ podem ter variações grandes no curto prazo, especialmente os de prazo longo (vencimento em 2045, 2050, 2060). Se você carrega até o vencimento, a marcação a mercado deixa de importar: recebe exatamente a rentabilidade contratada na compra.
A matemática básica
Um título é um contrato: você empresta R$ 1.000 e o emissor devolve R$ 2.000 daqui a 10 anos. Para o mercado precificar esse título hoje, aplica-se o desconto pela taxa de juros atual. Se a taxa vigente é 10% ao ano, R$ 2.000 em 10 anos valem hoje cerca de R$ 771. Se a taxa sobe para 14,75% (Selic atual em abril de 2026), R$ 2.000 em 10 anos valem hoje R$ 499.
O título continua prometendo entregar R$ 2.000 no vencimento. Se você esperar, recebe. Mas se precisar vender hoje, o comprador aplica a taxa atual do mercado — e paga o que faz sentido econômico para ele. O preço de recompra do Tesouro Direto usa essa mesma lógica, com spread (diferença) menor que o mercado secundário tradicional.
O caso real de 2022
Em 2020, com Selic a 2%, muitos investidores compraram Tesouro Prefixado 2031 com taxa de 7% ao ano, animados com a rentabilidade "alta" comparada à Selic. Em 2022, o ciclo de alta da Selic levou a taxa a 13,75%. Quem checou o extrato encontrou prejuízo mark-to-market entre 20% e 30% no título. Pânico, vendas forçadas e carta aos amigos do grupo de WhatsApp.
Quem carregou até 2031 teve exatamente os 7% ao ano contratados. Quem vendeu em 2022 realizou o prejuízo. A diferença não foi de escolha de título — foi de horizonte. Tesouro Prefixado e IPCA+ longos são contratos de longo prazo. Usar dinheiro que pode ser necessário em 1-2 anos neles é convidar o erro de comportamento no primeiro susto.
Quando vender antes pode fazer sentido
A marcação a mercado não é só risco — é também oportunidade. Se você comprou Tesouro Prefixado 2031 em 2024 a 12% ao ano, e no segundo semestre de 2025 a taxa caiu para 9,5%, seu título está valendo bem mais que o preço de compra. Vender nesse momento realiza o ganho — uma operação chamada "trade de renda fixa".
O raciocínio: o título vai pagar 12% até 2031. Se o mercado agora só oferece 9,5%, o seu título está "caro" — e você pode monetizar essa diferença vendendo. Claro que você perde os 12% futuros, mas embolsa uma rentabilidade anualizada que, no curto prazo, pode ser maior do que os 12% projetados.
Esse tipo de operação exige três condições: liquidez disponível (você não precisa do dinheiro para outra coisa), conhecimento técnico para calcular a rentabilidade anualizada realizada vs. alternativas disponíveis, e disciplina para não cair na tentação de "timing" em todo movimento pequeno de taxa.
Tabela: risco de marcação a mercado por título
| Título | Sensibilidade à taxa | Se carregar até vencimento | Se vender antes |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | Muito baixa | Selic acumulada | Praticamente = Selic acumulada |
| Tesouro IPCA+ 2029 | Média | IPCA + taxa contratada | Pode ser maior ou menor |
| Tesouro IPCA+ 2045 | Alta | IPCA + taxa contratada | Variação grande (±30%) |
| Tesouro Prefixado 2028 | Média | Taxa contratada | Pode mostrar prejuízo |
| Tesouro Prefixado 2031+ | Muito alta | Taxa contratada | Variação grande (±25%) |
O conceito de duration na prática
Duration é o tempo médio ponderado dos fluxos de caixa de um título. Quanto maior a duration, maior o impacto de mudanças de taxa. Para cada 1% de variação na taxa de juros, um título com duration de 5 anos varia aproximadamente 5% no preço; com duration de 10 anos, varia 10%.
Tesouro Selic tem duration próxima de zero — por isso não oscila. Tesouro Prefixado 2028 tem duration de cerca de 2,5 anos. Tesouro IPCA+ 2045 tem duration acima de 12 anos. A regra prática: se você não sabe o que é duration, provavelmente não deveria ter títulos de duration acima de 5 anos — a menos que tenha certeza absoluta de que vai carregar até o fim.
Checklist antes de comprar
- Qual é o prazo do meu objetivo com esse dinheiro? Se for menor que o vencimento, pode dar errado
- Posso aguentar ver prejuízo mark-to-market de 20% sem vender em pânico? Se a resposta honesta é não, reduza duration
- Tenho reserva de emergência separada em Tesouro Selic ou CDB pós-fixado? Se sim, pode assumir mais risco no resto da carteira
- Estou comprando porque a taxa está alta ou porque "parece bom"? Taxa alta é a hora certa de prefixar, mas só se você vai carregar
A marcação a mercado não é bug do sistema — é feature. Ela espelha a realidade econômica de que dinheiro no futuro vale menos quando juros sobem, e vale mais quando caem. Entender isso tira a ansiedade de olhar extrato todo dia. Investidor consciente compra com prazo compatível, carrega com disciplina e ignora o ruído diário de preço. Investidor ansioso abandona um título bom por um susto de curto prazo — e frequentemente recompra caro depois de uma baixa.
Respostas Rápidas
Posso perder dinheiro no Tesouro Selic?
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Na prática, não — desde que o governo federal honre seus compromissos. O Tesouro Selic paga a Selic acumulada do período, com variações diárias mínimas. Em 2020, houve uma situação atípica em que a taxa de recompra ficou ligeiramente descolada, gerando pequena marcação a mercado negativa em títulos longos de Selic. Hoje, esse efeito foi corrigido. Para reserva de emergência, o Tesouro Selic continua sendo a referência mais próxima de 'zero risco de mercado' no Brasil.
Vale a pena fazer trade com Tesouro Direto?
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Para o investidor individual comum, raramente. Fazer trade com renda fixa exige entender duration, convexidade, expectativa de juros futuros e custo fiscal (IR regressivo sobre o ganho). Quem faz isso bem são mesas de renda fixa de fundos, que operam com informação, volume e custos menores. Como investidor pessoa física, a estratégia com Tesouro Direto que costuma funcionar melhor é comprar com prazo alinhado ao objetivo e carregar — sem tentar acertar o timing do mercado.
Aviso legal: Este conteúdo é exclusivamente educacional e informativo. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer produto. Elaborado por Adriano Freire, Assessor de Investimentos credenciado pela ANCORD nº 50352. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Consulte um profissional certificado antes de tomar decisões financeiras.

Adriano Freire
Assessor de Investimentos | ANCORD nº 50352
Adriano Freire é Assessor de Investimentos credenciado pela ANCORD (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), com registro nº 50352. Especialista em educação financeira e assessoria personalizada sobre investimentos e mercado financeiro.
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