Marcação a mercado: por que títulos oscilam antes do vencimento
Em 12 anos orientando investidores brasileiros pela ANCORD, observo que o conceito de marcação a mercado é o que mais leva pessoas a venderem investimentos bons em hora ruim. A história típica: alguém compra Tesouro IPCA+ 2035 em janeiro, abre o app em junho e vê "patrimônio: -R$ 8.000". O instinto manda vender para "não perder mais"; a realidade é que, segurando até o vencimento, o título entrega exatamente a taxa contratada. Este guia explica por que os preços oscilam, quando isso importa e quando o saldo na tela é apenas ruído.

Respostas Rápidas
O que é marcação a mercado em Tesouro Direto?
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Marcação a mercado é a precificação diária do título com base no que ele valeria se vendido naquele momento, considerando as taxas atuais. Se a Selic ou as taxas longas sobem após sua compra, o preço de mercado do título cai. Se cair, sobe. Tesouro Selic é praticamente imune; Prefixado e IPCA+ são sensíveis a esse efeito.
Devo me preocupar quando vejo prejuízo na tela?
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Não, se você comprou para segurar até o vencimento. A taxa contratada na compra (ex: IPCA + 6,5%) está garantida na maturidade, independentemente das oscilações no caminho. O 'prejuízo' só vira real se você vender antes. Se o objetivo era manter, a oscilação é apenas marcação contábil — não afeta o resultado final.
A definição técnica
Marcação a mercado é a regra contábil que precifica diariamente um título com base no preço que ele teria se fosse vendido naquele dia. Para títulos públicos negociados no Tesouro Direto, o próprio Tesouro Nacional publica diariamente o preço de recompra de cada papel. Para títulos privados (CDBs, debêntures), o preço é calculado pela curva de juros vigente.
A alternativa contábil é a "marcação pela curva" (também chamada de marcação na taxa contratada): o título cresce diariamente conforme a taxa pactuada na compra, sem refletir oscilações de mercado. CDBs sem liquidez antes do vencimento costumam usar essa marcação. Tesouro Direto sempre usa marcação a mercado.
A regra mais importante
Marcação a mercado afeta apenas o que você vê hoje na tela. Se segurar o título até o vencimento, recebe a taxa contratada — exatamente como se a oscilação não tivesse ocorrido. O 'prejuízo' só se materializa se houver venda antecipada.
A matemática por trás
Todo título prefixado ou IPCA+ tem dois componentes: o valor de face (o que será pago no vencimento) e a taxa de desconto (a taxa que o mercado exige para chegar a esse valor de face). Quando você compra, paga um preço atual; ao longo do tempo, o título "cresce" até atingir o valor de face.
A fórmula simplificada do preço atual de um título prefixado:
Preço = Valor de face / (1 + taxa)^prazo
Exemplo: Tesouro Prefixado 2030 com valor de face R$ 1.000, taxa atual 12% e prazo restante 4 anos.
Preço = 1.000 / (1,12)^4 = R$ 635,52
Se a taxa subir para 14% (Selic mais alta), o preço cai para R$ 591,72 (queda de 6,9%).
Esse é o mecanismo: taxa sobe → preço cai. Taxa cai → preço sobe. A intensidade depende do prazo (quanto mais longo o título, maior a oscilação) — conceito conhecido como duration, que merece explicação própria.
Cenários práticos: o que acontece com cada título
| Evento | Prefixado 2030 | IPCA+ 2035 | Tesouro Selic |
|---|---|---|---|
| Selic sobe inesperadamente 1 p.p. | Cai ≈ 4-5% | Cai ≈ 6-8% | Estável (±0) |
| Selic cai 1 p.p. | Sobe ≈ 4-5% | Sobe ≈ 6-8% | Estável (±0) |
| IPCA dispara para 10% | Cai ≈ 8-12% | Sobe ≈ 4-6% | Estável (±0) |
| Crise de confiança fiscal | Cai ≈ 10-15% | Cai ≈ 8-12% | Estável (±0) |
| Prazo se aproximando do vencimento | Converge ao valor de face | Converge ao valor de face | Sempre acompanha |
Estimativas ilustrativas. Magnitude real depende da duration de cada título e do tamanho do choque. Tesouro Selic é praticamente imune por ser pós-fixado. Fins educacionais.
Por que Tesouro Selic é diferente
Tesouro Selic acompanha diariamente a Selic-over (taxa efetiva). Como o título é pós-fixado, o preço já reflete continuamente o que está acontecendo com a taxa básica — não há "expectativa" embutida no preço que possa ser revisada. Por isso a marcação é praticamente sempre positiva, sem oscilações relevantes.
Já o Tesouro IPCA+ e Prefixado embutem expectativas de mercado sobre a Selic e a inflação dos próximos anos. Quando essas expectativas mudam (alta inesperada da Selic, surpresa inflacionária, mudança fiscal), os preços se ajustam imediatamente. É exatamente esse ajuste que aparece como "prejuízo" na tela.
Quando marcação a mercado é OPORTUNIDADE
Marcação negativa em IPCA+ longo (ex: -8%) significa que a taxa real subiu — agora o investidor pode comprar IPCA + 7% onde antes era IPCA + 6%. Para quem está aportando, é oportunidade, não prejuízo. Quem comprou antes mantém a taxa antiga até o vencimento.
Oscilar antes do vencimento × vender antecipadamente
Vale separar dois conceitos que costumam ser confundidos. Oscilar antes do vencimento é o que este guia trata: o preço de mercado muda todo dia na sua tela, mas isso é apenas marcação contábil — se você segura o título até a maturidade, recebe a taxa contratada e a oscilação no caminho não tem efeito prático nenhum.
Já a venda antecipada é o momento em que essa oscilação vira resultado real: ao vender antes do vencimento, você embolsa (ou perde) a diferença entre o preço pago e o preço de mercado do dia, e ainda pode haver IR sobre o lucro. Em outras palavras, o preço só importa de verdade quando você decide vender. Se quer entender o cálculo, a tributação e quando a venda antecipada faz sentido, veja o guia complementar marcação a mercado e venda antecipada no Tesouro Direto.
Como evitar o erro de vender em má hora
- Comprar pensando no vencimento: se você sabe que pode segurar até 2035, marcação intermediária é irrelevante
- Distribuir vencimentos escalonados: 2027, 2030, 2035, 2045 — sempre tem um próximo do vencimento, reduzindo necessidade de venda antecipada
- Manter reserva de emergência separada: evita resgatar IPCA+ em má hora por imprevisto
- Não acompanhar saldo diariamente: revisão mensal ou trimestral é suficiente; ver oscilação diária aumenta risco emocional
CDB e marcação: a diferença importante
CDBs sem liquidez antecipada usam marcação na curva — o saldo cresce diariamente conforme a taxa contratada, sem oscilar. Você nunca vê "prejuízo" na tela. Mas isso vem com restrição: você não pode vender antes do vencimento.
CDBs com liquidez diária aceitam venda antecipada, mas o resgate antecipado costuma ser penalizado: o emissor paga taxa pré-acordada (geralmente menor que a oferecida no vencimento). Tesouro Direto, por contraste, sempre permite venda — mas pelo preço de mercado vigente.
Leituras relacionadas
- Duration: como medir a sensibilidade a juros
- Tesouro IPCA+ no longo prazo
- Selic: como funciona
- Risco × Retorno
- Guia do investidor iniciante
- Tesouro Direto: como abrir seu primeiro investimento
- Como montar uma carteira de investimentos do zero (2026)
Respostas Rápidas
Posso vender Tesouro IPCA+ com prejuízo e comprar de novo mais barato?
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Tecnicamente possível, mas raramente vale a pena. A venda gera IR sobre eventual lucro acumulado e fixa o prejuízo. Comprar de volta a uma taxa melhor pode compensar parcialmente, mas o IR pago não volta. Para a maioria, simplesmente segurar até o vencimento entrega o resultado contratado sem custo tributário extra.
Marcação a mercado se aplica a fundos?
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Sim. Fundos de renda fixa usam marcação a mercado nas cotas que reportam diariamente. Por isso fundos com títulos longos podem mostrar perda em ciclos de alta de juros, mesmo que os títulos venham a vencer pelo valor de face. A diferença é que o gestor pode comprar e vender ao longo do tempo, então o resultado do fundo nem sempre converge ao 'valor de face' como em um título isolado.
Como saber a duration do meu título?
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O Tesouro Direto publica a duration de cada papel na própria plataforma. Quanto maior a duration (medida em anos), maior a oscilação esperada para cada 1% de mudança nas taxas. Tesouro IPCA+ 2045 tem duration alta (10+ anos); Tesouro Selic tem duration próxima de zero. É métrica essencial para escolher prazo.
Aviso legal: Este conteúdo é exclusivamente educacional e informativo. Não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou oferta de qualquer produto. Elaborado por Adriano Freire, Assessor de Investimentos credenciado pela ANCORD nº 50352. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Consulte um profissional certificado antes de tomar decisões financeiras.
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Adriano Freire
Assessor de Investimentos | ANCORD nº 50352
Adriano Freire é Assessor de Investimentos credenciado pela ANCORD (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), com registro nº 50352. Especialista em educação financeira e assessoria personalizada sobre investimentos e mercado financeiro.
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